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Depoimentos de dois adolescentes de 16 e 17 anos e de um adulto de 25 anos Marcela – 16 anos Eu acho este mundo injusto. Sou uma das melhores alunas da minha classe, atualmente faço estágio numa empresa de arquitetura e percebo que tanto em casa quanto no trabalho não sou devidamente valorizada. Meus pais me tratam como criança. Queria ter liberdade de sair e voltar a hora que quiser, de modo a me divertir suficientemente com minhas amigas, mas meus pais insistem em me levar e buscar em horários pré-determinados, como se eu não soubesse cuidar de mim mesma. No estágio, tenho vontade de expressar minhas opiniões, mas percebo certa indiferença dos colegas efetivados de lá. Muitas vezes me solicitam a fazer trabalhos banais como organizar documentos, fichas de clientes, tirar fotocópias, dentre outros. Coisas que não me acrescentam em nada. Estou lá, mais pelo dinheiro. Com o salário que recebo, compro algumas coisas que trazem um pouco de alegria para minha vida. Na grande maioria delas: roupas, e objetos de vestuário em geral. A sensação de independência, destes momentos, é indescritível. Queria muito ser tratada como adulta, com o respeito que mereço e sem tantas cobranças que me cansam e muitas vezes me frustram por não poder me expressar como gostaria. Quando for mais velha, e passar a depender menos de meus pais, finalmente serei feliz a ponto de cuidar de mim mesma e fazer tudo que hoje não posso. João – 17 anos Eu acho este mundo uma grande ironia. Sou proibido de fazer tudo que gostaria, ao passo que lá fora fazem tudo o que querem. No colégio até que não tenho me saído tão mal. A média é 5,0 e quase sempre tiro notas acima. Estudo para passar. Sei que estes conhecimentos são inúteis, mas compreendo que preciso de diploma para entrar na faculdade. Pretendo fazer Administração de Empresas. Quero ser gerente e ganhar bem para realizar todos os meus sonhos. Por isso que não me interessa muito matérias como química, educação artística, literatura. Atualmente, meu objetivo principal tem sido conseguir uma namorada. Poxa, isto seria muito bacana. Teria alguém para compartilhar comigo de vários momentos agradáveis. Para isso, desde o começo do ano, me matriculei na academia da esquina para ganhar um pouco de massa e modelar o meu corpo. Procuro alguém inteligente, mas também de boa aparência. Então acredito que até o final do ano, quando finalmente atingir minha meta física, terei mais chances de conquistar alguém. Vejo como os instrutores conseguem as mais belas garotas e no fundo sinto até inveja deles. Não vejo a hora de fazer 18 anos. Meu pai vai me dar um carro quando entrar na faculdade e isto vai me facilitar as coisas. Mas eu sei que vou ter que procurar algum tipo de trabalho, porque possivelmente será um carro básico e precisarei de dinheiro para equipá-lo. É uma grande agonia querer as coisas e não tê-las de imediato. Acredito que estes executivos que tem poder são as pessoas mais felizes do mundo, pois podem ter tudo que quiserem. Acho que tem uma garota que gosta de mim. Ela tem 16 anos e mora aqui perto de casa. Ela se chama Marcela e faz estágio numa empresa de arquitetura. Nossos pais se conhecem há muito tempo. Acho-a muito bacana, esforçada, mas fisicamente não me atrai. Ela nem freqüenta academia. Converso com ela todos os dias no MSN. Ela reclama dos pais e do trabalho. Queria ser mais valorizada. Acho que fica se fazendo de vítima para me comover para que me aproxime dela. Eu mais a escuto, em consideração a amizade de nossos pais. De vez em quando pergunto da prima dela que está no Orkut, mas ela sempre desconversa. Qualquer hora ela encontra alguém com o perfil dela. Bem, só sei , que não vejo a hora de crescer, ter um bom emprego para finalmente ser feliz! Felipe – 25 anos A vida me trouxe muitos desafios, que eu nem imaginava encontrar pela frente. Trabalho e estudo desde os 17. Estagiei numa empresa de grande porte, onde aos 22 fui contratado logo ao me graduar em “Ciências da computação”. Trabalhando de dia e estudando pela noite pude adquirir recursos para me manter e de vez em quando me divertir com a galera. Namoro desde os 18 e digo que após algumas discussões necessárias, finalmente nos ajustamos. Minha vida mudou completamente aos 17. Estava insatisfeito por não possuir liberdade para fazer tudo o que queria, visto que já me considerava uma pessoa madura. Meus pais me podavam de muitas coisas e me sentia revoltado com estas supostas injustiças. Foi então que em certa tarde de Domingo me telefonaram dizendo do acidente. Acidente este, fatal que ocorrera durante retorno deles da casa de meus avós, no interior paulista. Foi muito difícil esta perda. Julgava-me preparado para a vida, mas tão logo percebi que ainda havia tanto a aprender, tantas situações a vivenciar. Apesar de amparado materialmente com o que herdei, tive que me reorganizar de modo a começar a trabalhar para ao menos manter o que me fora deixado. A primeira frustração foi a de ter de começar por baixo, como estagiário. O dinheiro não dava para quase nada. Economizei o que podia para conseguir conciliar a faculdade e o trabalho. Segui as últimas orientações de meus pais. Fiz questão de concluir os estudos. Somente agora vejo a importância de cada etapa da vida. Percebo que mesmo aqueles conhecimentos que nunca pensaria em utilizar, mais cedo ou mais tarde me deparava utilizando-os em algum tipo de projeto. Como sinto falta de meus pais! Tive que cuidar de mim mesmo às pressas. Não havia quem o fizesse. De vez em quando viajava para o interior para rever meus tios e avós, mas não era a mesma coisa. A experiência me ensinou que devemos valorizar tudo aquilo que temos, todas as pessoas que nos cercam, pois mais cedo ou mais tarde, não mais as teremos ao nosso lado. Agradeço a Deus por ter tido pais que me passaram valores tais como honestidade e perseverança. Isto fez toda a diferença para minha vida. A liberdade que sempre almejei quando mais novo, de nada me serviu. Muito pelo contrário. Quando livre para ir e vir, sem as cobranças dos pais, me senti por muitas vezes solitário. Muitas vezes, a maneira pela qual nossos pais expressam o amor que sentem por nós se mostra através da imposição de certas regras. Afinal eles já foram adolescentes, e por mais que não sejam perfeitos, sabem de algumas das dificuldades e conflitos desta fase tão importante de transição em nossas vidas. Invejo meus amigos que tem pais, mas percebo que na grande maioria, não dão o devido valor que eles merecem. Nenhum deles é perfeito, são humanos como nós, mas dentro de suas imperfeições, tenho certeza que em grande maioria fazem tudo o que podem para expressar o carinho que tem por nós filhos. Se eu pudesse voltar no tempo, teria abraçado, acompanhado, ouvido mais a meus pais. Hoje o que me resta é fazê-lo em pensamento e me consolar que nesta vida tudo tem um começo e tudo tem um final. Obs: Estes depoimentos são fictícios, mas qualquer semelhança com a vida real não é fruto do acaso. Pode acreditar! (Tchobi)
Escrito por Tchobi às 12h46
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